A aquisição da RE/MAX pela Real Brokerage por US$ 880 milhões revela o que está mudando no setor — e o que isso significa para o Brasil

Reprodução Freepik
No final de abril de 2026, o setor imobiliário global acordou com uma notícia que poucos antecipavam: a Real Brokerage Inc. anunciou a aquisição da RE/MAX Holdings por cerca de US$ 880 milhões, criando uma das maiores plataformas imobiliárias com base tecnológica do mundo.
A operação une a capilaridade histórica da RE/MAX — presente em mais de 120 países, com 145 mil agentes e aproximadamente 8.500 franqueados — à infraestrutura tecnológica e de inteligência artificial da Real Brokerage, uma imobiliária 100% digital que opera com uma das plataformas tecnológicas mais avançadas do setor, a reZEN, e suas ferramentas de IA como o Leo CoPilot e o HeyLeo.
A nova holding, batizada de Real REMAX Group, projeta receita combinada de US$ 2,3 bilhões ao ano, com mais de 180 mil agentes — mais de 100 mil deles somente nos Estados Unidos e Canadá.
Mais do que um negócio bilionário, essa fusão levanta questões que ultrapassam as fronteiras americanas: o que esse movimento diz sobre o futuro do setor? O que muda para corretores e imobiliárias no Brasil?
Para responder a essas perguntas, o DF Imóveis ouviu Leonardo Guerra, especialista com atuação no mercado imobiliário do Distrito Federal e atuante diretamente como franqueado Master da RE/MAX em Brasília-DF.
O que chamou atenção nessa fusão
Para Leonardo, o movimento entre Real e RE/MAX precisa ser lido à luz de uma tendência estrutural: o deslocamento de corretores das grandes redes para plataformas digitais que entregam mais tecnologia e eficiência.
“A RE/MAX, assim como outras marcas, vinha perdendo quantidade de corretores para plataformas e soluções digitais que usam muito tecnologia e inteligência artificial. Diante dessa situação, a RE/MAX tentava se posicionar para permanecer como marca líder de mercado — e acabou concluindo que a saída era fazer essa fusão com a Real.”
Do outro lado, a Real Brokerage tinha seus próprios interesses. A empresa cresceu rapidamente com uma proposta 100% digital — todos os seus agentes são obrigados a usar a plataforma reZEN —, mas buscava algo que o dinheiro não compra rápido: presença e reputação globais.
“A Real certamente entendeu que ela consegue potencializar a escalabilidade dela com a tecnologia, se ela tiver capilaridade — que era exatamente o que a RE/MAX tinha, já presente em mais de 120 países.”
A transação forma a Real REMAX Group, uma plataforma global de tecnologia imobiliária que combina a base tecnológica baseada em IA da Real com a marca icônica, a rede global de franquias da RE/MAX e o exército de corretores, gestores e franqueados associados à Remax.
A lógica por trás da fusão: IA ganhou capilaridade, a escala ganhou tecnologia avançada
Para entender o que cada empresa ganhou com o negócio, é preciso olhar para o que cada uma tinha — e o que faltava.
A Real Brokerage é uma das apostas mais arrojadas do mercado imobiliário americano na última década. Sua plataforma proprietária, o reZEN, centraliza toda a operação dos corretores: gestão de transações, compliance automatizado, pagamentos e suporte por inteligência artificial. A ferramenta HeyLeo, desenvolvida internamente sobre o reZEN, permite que consumidores busquem imóveis por meio de conversação natural, sem depender de filtros tradicionais.
O ecossistema tecnológico da Real inclui ainda o Leo CoPilot, um assistente de IA voltado para agentes, e o Real Wallet, que dá aos corretores acesso imediato às suas comissões.
No entanto, apesar do crescimento acelerado, a Real ainda era uma empresa predominantemente norte-americana. A RE/MAX resolvia esse problema de uma vez: 120 países, décadas de cultura de produtividade e uma das marcas mais reconhecidas do mundo imobiliário.
“O que eu entendi desse movimento foi que a Real comprou algo que era bom, que tinha capilaridade, que tinha uma cultura muito forte de produtividade. A produtividade do corretor da RE/MAX é maior do que a do corretor da Real, mesmo os corretores da Real usando solução tecnologias mais avançadas e IA.”
A observação é relevante porque contradiz uma narrativa comum: a de que tecnologia, por si só, supera o capital humano. Nesse caso, a empresa mais tecnológica foi buscar a que tinha mais gente qualificada.
“No mundo inteiro está concentrando os negócios na mão de quem domina tecnologia e IA, e de quem domina as soluções financeiras. É onde o dinheiro está — e aí o dinheiro acaba sendo mais forte para poder comprar. Você compra o que é bom: e a RE/MAX era isso, com capilaridade e cultura de produtividade.”
O impacto para o mercado imobiliário — inclusive no Brasil
Para Leonardo, a fusão não é um evento isolado do mercado americano. É um sinal de alerta para todo o setor, em qualquer mercado.
“Toda e qualquer empresa imobiliária precisa estar atenta ao que está acontecendo com ela — seja uma pequena imobiliária de bairro ou uma grande marca nacional. Ela precisa estar atenta para que não morra. A velocidade da mudança está muito grande.”
O argumento central é simples e direto: se uma marca com a força da RE/MAX precisou se mover, o que esperar de empresas menores?
“Atuar sozinho vai ficar cada vez mais caro e desafiador. Isso é uma demonstração de que, mesmo com toda a força que a RE/MAX tem, ela teve que buscar soluções para permanecer no mercado. Imagine o que não vai acontecer com uma imobiliária de bairro que não tem toda essa força.”
O especialista vê paralelos com outros setores da economia brasileira — o varejo, as farmácias, o setor de eletrodomésticos — onde a concentração de mercado nas mãos de grandes grupos tecnológicos e financeiros já se consolidou.
“Cada vez mais, vai haver concentração da propriedade das marcas. E geralmente isso vai vir de empresas que têm o capital, das fintechs ou de empresas com potencial de crescimento muito grande.”
Tecnologia e IA no imobiliário: não é mais questão de quando, é questão de como
A fusão entre Real e RE/MAX é também um termômetro de algo que já estava em curso: a adoção de tecnologias e inteligência artificial no mercado imobiliário deixou de ser uma discussão sobre o futuro e se tornou uma exigência do presente.
“A inteligência artificial já é uma realidade. A adoção da IA por qualquer empresa, também no mercado imobiliário, é uma necessidade iminente. Não tem como esperar mais.”
Mas Leonardo faz uma ressalva importante — e frequentemente ignorada: tecnologia sem capacitação humana não funciona.
“Não adianta trazer tecnologia e inteligência artificial para dentro da empresa se ela não tiver as pessoas que vão também operar isso. Não dá para pensar numa empresa de tecnologia que não tenha treinamento, capacitação continuada, pessoas capazes de fazer o uso correto da IA.”
E vai além, fazendo uma leitura direta sobre o perfil de corretor que está em risco de extinção:
“Ainda tem muito corretor que é analógico — nem digital ele é. Esses profissionais já estão fora do mercado. Esses profissionais não têm mais espaço. Esse, sim, vai ser substituído por uma solução de IA muito facilmente.”
O que muda no dia a dia: corretores, imobiliárias e plataformas
A transformação que a fusão Real-RE/MAX representa não chega toda de uma vez para o mercado brasileiro. Mas ela antecipa um movimento que já é visível: a mudança no perfil de empresa e de profissional que sobrevive no setor.
Para Leonardo, a principal mudança não é tecnológica — é de mentalidade empresarial.
“Para que uma empresa continue competitiva no mercado, ela precisa buscar aliados, ela precisa estar num ecossistema, ter várias ferramentas e soluções além daquilo que ela costuma ter. Não faz mais sentido ter uma empresa imobiliária onde o dono seja a força de vendas. Não vai conseguir competir sem uma estrutura de treinamento e capacitação.”
Isso se traduz em duas direções: as imobiliárias mais tradicionais que não se modernizarem tenderão a perder relevância; e os corretores mais qualificados buscarão ativamente ambientes que ofereçam tecnologia, treinamento e ecossistema.
“O corretor capaz, que busca capacitação, que gosta de tecnologia, vai buscar esse ambiente — seja dentro de uma estrutura física que ofereça isso ou por meio de uma plataforma digital.”
Escala, IA e o futuro do setor: oportunidades e desafios
Quando a conversa chega ao longo prazo, Leonardo aponta um dado que revela o quanto o mercado imobiliário brasileiro ainda tem espaço para crescer — e mudar.
“Hoje, praticamente metade das transações imobiliárias são realizadas com a intermediação de um corretor ou imobiliária aqui no Brasil. Enquanto isso, nos Estados Unidos, 95% das transações são realizadas com ajuda de um corretor ou imobiliária.”
A diferença é expressiva: no Brasil, ainda há um grande contingente de transações acontecendo sem qualquer suporte profissional. Para Leonardo, o desafio não é apenas tecnológico — é de valorização da profissão.
“O grande desafio é fazer com que a atividade seja vista como necessária. A sociedade precisa ver valor no profissional. Mas para isso, o profissional precisa se capacitar, saber usar todas as ferramentas, ser de fato alguém com conhecimento profundo do mercado — mais até do que o cliente.”
A mensagem tem um lado otimista que merece destaque: o espaço para crescimento é enorme. Um mercado em que a intermediação profissional passa de 50% para patamares próximos aos americanos representa um salto significativo em transações qualificadas — e em oportunidades para quem estiver bem posicionado.
“Sim, é uma necessidade de urgência, a adoção da tecnologia e da IA. Mas aqui no Brasil, o foco precisa ser na capacitação do profissional.”
O conselho para quem atua no setor hoje
Diante de tudo isso — a fusão, a aceleração tecnológica, a concentração de mercado —, qual é o caminho para quem trabalha no imobiliário hoje?
A resposta de Leonardo é clara:
“Toda empresa precisa buscar soluções de tecnologia e inteligência artificial, mas ela também precisa entender que não adianta trazer tecnologia se não tiver as pessoas que vão operar isso. A principal mudança é esse despertar — para que as empresas mais tradicionais se movimentem antes de estarem rapidamente fora do mercado.”
Não se trata de abandonar o que se sabe fazer — o relacionamento, o conhecimento local, a confiança construída ao longo de anos. Trata-se de potencializar tudo isso com as ferramentas certas.
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